Filipe Ribeiro"

Quando eu era mais novo e comecei a me interessar por rock, sempre me deparava com uma música linda, mas ninguém sabia me dizer de quem era. Tinha uma vaga lembrança da melodia e cheguei a procurá-la no Napster, mas como o nome da música, a banda e a letra me eram desconhecidas nunca consegui encontrá-la.

Só me lembro que falava de São Paulo.

Uma vez a ouvi de madrugada, no rádio do carro do meu primo, mas chegamos onde quer que estávamos indo antes que o locutor anunciasse a banda. Numa outra noite ouvi essa música num bar, quando alguém trocou de estação. Anos depois eu a ouviria no metro, voltando pra casa...

Alguns meses atrás eu estava num show dos “Inocentes”, uma banda quase famosa de Punk Rock, quase famosa desde os anos oitenta... E no meio do show de músicas desconhecidas, eles tocam o refrão. Era a música!

Foi um Punk com o nariz sangrando ao meu lado que me disse o nome da música. Chegando em casa, procurei pela música e a encontrei. Mas ela não constava como uma música dos Inocentes. Sua autoria era atribuída a uma banda da qual eu nunca havia ouvido falar: “ 365”.

Mês passado fui num show dessa banda, num barzinho da Zona Leste. O bar cheirava a mijo... E eles nem tocaram a tal música...

 

A música se chama “São Paulo”, e também está na peça, com a letra modificada.

 

“ARIELA FORA DO MAR” é um mergulho nesse universo anônimo do rock. É a saga de uma seminal banda de rock que tocou por cinco anos nos bares da cidade e vendeu apenas quatro cópias de seu único álbum de estréia. A história começa com uma pista falsa, que leva o espectador a crer que se trata de uma investigação detetivesca sobre a identidade do comprador misterioso da quarta cópia do CD. Mas logo o espectador começa a perceber que não é nada disso... “ARIELA FORA DO MAR” é a história de uma menina.

Seu nome é Ariela e o fato de existirem mais de cem muros pichados com o mesmo nome por toda a cidade, de Interlagos ao Jaçanã, não é só uma coincidência... É a história de apenas uma menina na cidade, ou de dois milhões delas, ou quantas possam caber numa canção.

A peça fala sobre esses jovens roqueiros desajustados, tentando seguir seus caminhos pelas ruas da cidade, passando por sites da internet, cartas com erros de português, violências sexuais, lembranças inventadas, amores que deram errado, gravadores perdidos e cem muros pichados...

 

É a historia das nossas vidas!

Meu intuito ao começar a escrever essa peça foi, assim como “Werter” é a obra definitiva sobre o suicídio adolescente, “O Apanhador nos Campos de Centeio” a obra definitiva sobre angústia juvenil, “O Pequeno Príncipe” sobre a perda da infância, fazer a obra definitiva sobre esse gênero tão mal explorado. Consegui?

Difícil dizer, mas ainda que talvez não valha a pena pelo brilhantismo, vale ser lida seriamente só por sua honestidade documental. É o testamento da nossa geração! Que já está passando, e terá passado e se juntado às outras que vieram antes de nós, quando mais essa década virar...

Antes disso, permitam-me levá-los por esse fascinante universo, pelas ruas recapeadas de São Paulo!